A vida no campo dificulta o acesso aos cuidados contra o câncer

A vida no campo dificulta o acesso aos cuidados contra o câncer

Viver em zona rural pode complicar o acesso aos tratamentos contra o câncer, mesmo que a qualidade dos cuidados especializados permaneça idêntica uma vez no local. Um estudo realizado na Escócia com pacientes que concluíram seu tratamento inicial revela que os habitantes do campo precisam fazer um esforço logístico, financeiro e físico muito maior para se tratarem.

As viagens até os centros de tratamento, muitas vezes longas e exaustivas, amplificam a fadiga já presente após os tratamentos. Alguns pacientes explicam perder um dia inteiro para cada consulta, enquanto outros precisam adiar consultas devido à distância ou à falta de transporte adequado. Os efeitos colaterais, como problemas de continência após uma cirurgia de próstata ou náuseas relacionadas à quimioterapia, tornam essas viagens ainda mais difíceis. Um homem chegou a usar uma bacia para urinar em casa, tamanha era a dificuldade da viagem. Os custos também se acumulam: gasolina, pedágios ou tempo de trabalho perdido pesam muito no orçamento das famílias, especialmente para aqueles que reduziram sua atividade profissional.

No entanto, uma vez no hospital, os pacientes rurais não questionam a competência das equipes médicas. Sua confiança nos centros especializados permanece forte, mas o acesso aos médicos generalistas locais é muitas vezes mais complicado. A dificuldade em conseguir uma consulta rápida ou a falta de continuidade no acompanhamento com o mesmo médico geram ansiedade. Alguns até preferem ir diretamente ao hospital em vez de tentar a sorte com seu médico generalista. Por outro lado, quando uma relação de confiança se estabelece com um profissional de saúde, os pacientes se sentem mais tranquilos e melhor assistidos.

As infraestruturas desempenham um papel fundamental para atenuar essas desigualdades. Melhores estradas, como o anel viário em torno de Aberdeen, reduziram o tempo de viagem para alguns. O transporte público direto até os hospitais também permite que aqueles que não dirigem mantenham sua autonomia. Os serviços locais, como a possibilidade de fazer exames de sangue com o médico de família, evitam deslocamentos desnecessários. As associações beneficentes, por sua vez, oferecem um apoio valioso: alojamento próximo aos centros de tratamento, suporte emocional ou ajuda financeira para as despesas de transporte.

A vida no campo também traz vantagens que compensam parcialmente essas dificuldades. Muitos destacam a tranquilidade, o ar puro e o apoio de uma comunidade unida como trunfos importantes para seu bem-estar. Alguns explicam que apenas ver as colinas todas as manhãs os ajuda a respirar melhor e a superar as provações. Os habitantes das zonas rurais muitas vezes aceitam essas viagens como parte integrante de seu estilo de vida, mesmo que em alguns dias a fadiga prevaleça.

As diferenças entre homens e mulheres também são evidentes. Os homens geralmente contam com suas cônjuges para acompanhá-los às consultas e gerenciar os aspectos práticos, enquanto as mulheres se apoiam em uma rede mais ampla, que inclui filhos, amigos ou grupos de apoio. A idade e o tipo de câncer também influenciam a experiência: os idosos planejam suas viagens para evitar a noite ou o trânsito, enquanto os mais jovens se preocupam mais com os custos relacionados à gasolina ou aos dias de trabalho perdidos.

Esse estudo mostra que a geografia não diminui a qualidade dos cuidados especializados, mas pesa muito na forma como os pacientes acessam esses serviços. Soluções existem para reduzir essas desigualdades: agendar consultas levando em consideração as distâncias, agrupar exames no mesmo dia, desenvolver cuidados locais e integrar melhor as associações nos percursos de tratamento. Essas medidas aliviariam os pacientes, ao mesmo tempo em que respeitariam seu apego ao seu estilo de vida.


Bibliographie

Source de l’étude

DOI : https://doi.org/10.1007/s00520-026-10836-2

Titre : “You lose a day for every appointment”: A qualitative study of how rural versus urban residence shapes cancer care experiences in Northeast Scotland

Revue : Supportive Care in Cancer

Éditeur : Springer Science and Business Media LLC

Auteurs : Romi Carriere; Rosalind Adam; Leslie Samuel; Peter Murchie

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